Minha Pasárgada particular

Esse lugarzinho, ali na curva do rio, foi onde vivi até meus dezesseis anos... Depois nunca mais voltei, e nem pretendo. Porque quero guardar as lembranças do jeito que elas estão. São as lembranças mais bonitas que tenho, talvez porque elas estejam modificadas pela nostalgia de um tempo que nunca mais voltará, de um tempo mágico que é a infância, e de um lugar mágico, o Feijão Verde.
Sei que se um dia eu voltar, nada mais será como na minha imaginação. Mesmo nessa foto, por satélite, não encontro muita coisa que exitia, ou que eu acredito que existia, na época de "eu menina". Mas o rio ainda está ali, a mesma curva, misteriosa, fechada de árvores, com as quais eu pintava as mais lindas telas imaginárias. E também está ali o matão, de depois do rio, que eu acreditava ser maior que a Floresta Amazônica... "eles falam que a Floresta Amazônica é a maior do mundo porque não conhecem o feijão Verde"... eu devia de ter uns cinco ou seis anos quando acreditava piamente nisto...
Também está ali, no meio do nada, o pé de mexerica, na foto, quase não dá para ver, mas era como um oásis no meio da roça. À tarde, todo mundo parava de catar algodão e sentava na sua sombra... as histórias (fofocas, piadas, causos) eram emendadas umas às outras, e se o pai não chamasse, ninguém voltava a trabalhar...
Eu nem chamo de saudade esse sentimento, porque não se pode nomear... É uma mistura estranha, algo que fez parte de mim e que está tão distante no tempo e no espaço... as pitangueiras da beira do rio, a mina d'água, a sanga que vinha do meio da "floresta" e desaguava bem na curva, os banhos no rio, o laranjal atrás de casa, as brincadeiras, o modo de falar das pessoas... as vezes, eu me pergunto como posso viver sem isso. E ao mesmo tempo dúvido que tenha sido assim...
É minha Pasárgada particular, meu refúgio imaginário...
Escrito por Fátima às 18h24
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